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Um Senhor da Gaita
Por Paulo Fernando
Craveiro
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O standard é a
música eterna. Uma balada que está imune aos dias e desafia a
tessitura do tempo. Guardadas as proporções, uma sinfonia de Beethoven é
tanto um
standard quanto What's New ?, a esplêndida canção escrita por B. Haggart e J. Burke. A
composição As Quatro Estações, de Vivaldi, chegou ao conhecimento
público em Amsterdã,
em 1925, e até hoje emociona as pessoas na sugestão da metamorfose da primavera em
estate, do autunno em inverno. Escrita para o filme Laura, que Otto Preminger dirigiu em
1944, contando a misteriosa história do romance de Vera Caspary, balada do mesmo nome
tem sentido de permanência que não possuem as músicas epidérmicas heavy, cujo sucesso
está circunscrito a apenas 24 horas ou a três minutos.
Em Soul Harmonica,
um instrumentista investe no standard norte-americano. Faz
parceria com compositores de ontem e com os músicos brasileiros de hoje. Cabe a Clóvis
Pereira encenar a peça do caminho de volta (sempre atual) através de uma direção musical
moderna sem ser modernosa, registrando aqui e ali, ao mesmo tempo em que se encontra
diante dos teclados, a alma da harmonia da bossa nova. A seu lado estão Fernando Rangel
(baixo acústico), Tony Dias (baixo elétrico), João Lyra (guitarra e
violão), Adelson (bateria)
e Ivanildo Maciel (clarinete). Ao mesmo tempo em que se faz jazz e
se presta tributo ao
romântico que está nas entranhas das baladas, estende-se a mão em gesto de aproximação
com música brasileira. Neste disco está presente o swing
joãogilbertiano que sairia
consagrado certo dia no Carnegie Hall, de Nova York, como uma espécie de dissecação
consciente da música em função da simplicidade. Tanto quanto Paul Klee
(1879-1940), o
desenhista e pintor suíço de Munchenbuchsee, revelou em universo em que o aparentemente
infantil é muito mais profundo do que se poderia imaginar.
O instrumentista básico
desta sessão de standards é Jehovah da Gaita, um jazzman do
Nordeste com nome de deus em hebraico, corruptela do correto Iavé,
muito usado pelos
teólogos na Idade Média. Na vulgata latina, Iavé quer dizer "o Senhor". O Jehovah daqui
não é "o Senhor", mas é um senhor da harmônica de boca, nome sofisticado para exprimir
o que é gaita.
Esse senhor da gaita
vai soprando e aspirando o ar da
pequena c aixa de som.
Torna-se cúmplice do pequeno instrumento que
surgiu, dentro dos padrões atuais, na
Alemanha de 1830, na descendência direta de outro do
qual já se ouvia falar, ou se ouvia
soprar e aspirar 1.000 A.C. na veneranda China.
O reconhecimento erudito
da harmônica de boca foi feito pelos compositores Vaughan
Williams e Darius Milhaud. Ambos escreveram
músicas para serem executadas pela
referência chamada Larry Adler.
No jazz, ou na
música popular, expressivo é o belga Jean Toots Thielemans,
nascido em
Bruxelas, que depois da II Guerra Mundial ouviu a guitarra de outro belga, o cigano Jean
Baptiste Django Reinhardt. Pelo trajeto das cordas de aço,
tudo era plangente e profundo
transmitido através dos dedos poderosos do guitarrista que teve o
fio da vida e a morte
estendido entre Liverchies e Fontainebleau.
Thielemans é a referência
e a reverência de Jehovah. Mais uma vez ele prova que
o
jazz é uma música
mais de intérprete do que de
compositor. Com seu talento e
paradoxalmente disciplinada improvisação, é daqueles que
aceitam o desafio - e disso
fazem a arte - das limitações tonais dos instrumentos. Esse senhor
da gaita extrai o que
sabe da harmônica tanto quanto um cravista pode se transformar em
virtuose na execução
do cravo ou Gerry Mulligan prefere a opacidade do som do
sax-barítono para transformá-lo
no brilho das estrelas.
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direitos reservados.
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